Sobre palavras e silêncio...
"Essa tarde vi gravuras japonesas com o Glassner. E de repente fiquei sabendo: é assim que eu quero escrever. Com um espaço imenso à volta das palavras. Detesto muitas palavras. Queria escrever somente palavras organicamente inseridas num grande silêncio, daquelas cuja única utilidade é dominar o silêncio e rasgá-lo. Na realidade as palavras devem acentuar o silêncio, tal como naquela gravura japonesa com o ramo florido para baixo, para o canto. Umas tênues pinceladas - mas com que olho para reproduzir o mais pequeno pormenor -e, à volta delas, o grande espaço, mas não um espaço representando um vazio, mas sim, digamos, um espaço com alma. Detesto uma acumulação de palavras.
Na realidade pode se usar poucas palavras para nomear as grandes coisas que importam na vida.
Se algum dia chegar a escrever - o quê, sinceramente ? - gostaria então de pincelar algumas palavras sobre um fundo mudo. E tem de ser mais difícil de reproduzir e animar esse silêncio e essa mudez do que achar as palavras. O importante será a relação justa entre palavras e silêncio, um silêncio no qual acontece mais do que em todas as palavras que uma pessoa consiga reunir. E em cada novela - ou seja lá aquilo que for - o fundo em silêncio terá de ser um matiz e um conteúdo diferentes, exatamente como acontece nas gravuras japonesas. Não se trata de um silêncio vago e inatingível, esse silêncio terá também de ser os seus próprios contornos definidos e a sua própria forma. E, por consequência, as palavras deveriam servir somente para dar forma e delineação ao silêncio. E cada palavra é como um pequeno marco ou um pequeno relevo ao longo de infindáveis caminhos planos e extensos, e vastas planícies.
Se passa algo bastante cômico comigo: poderia escrever capítulos inteiros sobre como gostaria de escrever na realidade, e é bem possível que para além de receitas nunca consiga pôr uma letra no papel. Mas, de repente, observei nas gravuras japonesas de modo bastante ilustrativo como eu realmente gostaria de escrever. E um dia gostaria de caminhar pelas paisagens japonesas para ainda saber melhor. Tal como acredito que mais tarde irei partir em direção a leste para viver lá diariamente aquilo que aqui se crê ser uma incoerência."
de Etty Hillesum, my book.

1 Comments:
Quebrou tudo Monicatzzzzzzzz ;)
E por mais que eu ame a música, o silêncio me fascina !!!
Aninha - Musical Flowerr
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